Do Facebook ao áudio. Paulo Turra explica entrada e saída do Vitória SC

Há, sensivelmente, meio ano, Paulo Turra não evitou o despedimento do Vitória SC, naquela que foi a sua primeira experiência como treinador principal fora do Brasil.

Em conversa com o Desporto ao Minuto, o ex-futebolista (2004/05) e técnico dos vimaranenses revelou ter ficado surpreendido com o convite feito por parte de António Miguel Cardoso, presidente do Vitória SC, através de uma mensagem no Facebook, sendo que, em sentido inverso, a sua saída acabaria por ser comunicada… por intermédio de uma mensagem de voz. Pelo meio, o trajeto, a pressão e o atual trabalho de Álvaro Pacheco também foram alvo de comentário.

“Uma semana após ter deixado o Santos, recebi uma mensagem do presidente do Vitória SC [António Miguel Cardoso], através do Facebook, a perguntar se eu já tinha pensado em ser treinador em Portugal. Respondi dois dias depois, até porque não estou habituado a ir ao Facebook, vi o conteúdo da mensagem e respondi ‘Sim, presidente. É um dos meus sonhos voltar a trabalhar em Portugal, agora como treinador’. Ele não me respondeu”, começou por contar.

Alguns dias depois, ligou-me o Rogério Matias [diretor desportivo] e eu disse que estava aberto [ao convite]. O Moreno, que foi meu colega no Vitória, pediu para sair. Falei novamente com o Rogério Matias, com a psicóloga do clube e novamente com o presidente. O meu agente, o Hugo Cajuda, filho do Manuel Cajuda e também agente do Abel Ferreira, ajudou-me. Fui para Portugal e fiquei como treinador, ainda que como adjunto“, vincou de seguida o ex-adjunto de Luiz Felipe Scolari.

Sinto-me grato ao Vitória pela oportunidade que me deu em cumprir o sonho de ser treinador em Portugal, num clube onde eu tenho uma história vitoriosa como jogador.Paulo Turra assumiu o Vitória SC após as saídas de Moreno Teixeira e João Aroso (adjunto), com uma vitória alcançada por cada um ao fim de duas jornadas, arrancando a aventura com um triunfo frente ao Vizela (2-0), até que se seguiu uma onda de resultados negativos. Após três derrotas e um empate, o emblema de Guimarães voltaria a sorrir ao bater o Estoril (3-2) com uma reviravolta, face a dois golos de desvantagem ao intervalo, mas nem isso evitou… o seu despedimento.

Não sabia que ia ser despedido. A minha metodologia de trabalho consiste na ideia de jogar e descansar. Como só havia o campeonato e a Taça de Portugal, praticamente com jogo de domingo a domingo, dava folga de um a dois dias, até porque eu exijo muita intensidade no treino e no jogo. Após a reviravolta, a minha nona como treinador em 2023, dei-lhes dois dias [de folga]. Organizaram um churrasco na terça-feira, algo que têm ali como padrão entre jogadores e equipa técnica, e depois eu fui para casa”, contou.

Recebi uma mensagem de voz do presidente a comunicar que eu já não era mais o treinador do Vitória, para minha surpresa. Como já disse, faz parte. A vida de treinador é mesmo assim. Sinto-me grato ao Vitória pela oportunidade que me deu em cumprir o sonho de ser treinador em Portugal, num clube onde eu tenho uma história vitoriosa como jogador”, admitiu ainda.

“Acredito que, juntamente com a minha equipa técnica, tenha deixado um legado ‘bacano’ de seriedade, de treinar todos por igual, desde os profissionais que trabalham na cozinha até ao presidente. Os jogadores sabiam que era para treinarmos fortes e ‘compraram’ essa ideia. Os adeptos são muito fervorosos, aparecem em força no estádio. Cobram, mas incentivam. Só posso agradecer. E vou voltar a treinar em Portugal em dia. Não tenho dúvida nenhuma“, completou Paulo Turra.

Notícias ao Minuto Paulo Turra chegou a Portugal para dar início à sua primeira experiência como treinador principal fora do Brasil, porém, apesar da gratidão, o trajeto não foi o desejado.© Vitória SC  

Vitória SC feliz na I Liga e na Taça? Paulo Turra não tem dúvidas

Questionado se o grande momento que o emblema de Guimarães está a atravessar, às ordens de Álvaro Pacheco, poderia estar a acontecer sob o seu comando técnico, Paulo Turra não hesitou em dizer que sim, passando depois a explicar os motivos.

“Não tenho dúvida nenhuma em afirmar isso. É tudo um processo. A equipa do Vitória é muito boa. Se é equipa para bater de frente com os três ‘grandes’ de Portugal e ser campeão? Não. Ponto. É uma equipa para fazer um campeonato regular, de forma a conquistar uma vaga nas competições europeias.”, atirou, antes de particularizar com exemplos.

“Alguns jogadores já levam tempo juntos e alguns desequilibram. Bruno Gaspar, Tomás Handel, Jota Silva, João Mendes, Ricardo Mangas, Bruno Varela, e até André Silva e Dani Silva que agora saíram, são atletas que mostram que é uma equipa muito boa. Quando cheguei, indiquei dois ou três possíveis reforços, mas o presidente disse que o clube não tinha dinheiro. Não recebi nenhum reforço”, vincou de seguida.

“Há coisas que o Vitória ainda faz dentro de campo que são da minha identidade. Eles antes tinham como padrão mandar a bola para trás perante a pressão. Eu disse-lhes que, quando o adversário pressionava, a opção tem de ser encontrada para a frente, de um lado, de outro, ou em profundidade. A última é a de passar ao guarda-redes. Muito dificilmente isso aconteceu comigo”, explicou Paulo Turra, por comparação à análise feita às ideias de jogo de Moreno. “São comportamentos de reação à perda e de profundidade, até porque tínhamos jogadores para isso. Eles não tinham de se preocupar só em dar suporte, mas também entrar na área e de surgir de forma surpresa na linha defensiva do adversário. Coisas que instituí durante os treinos. Os jogadores foram muito profissionais e leais comigo”.

Com o poder da massa associativa e com o grupo de jogadores muito forte, mesmo com as saídas [no inverno], o Vitória tem plenas condições de conquistar esses dois objetivos [Taça de Portugal e zona europeia na I Liga].

Apesar das comparações, com diferenças e semelhanças identificadas, o técnico brasileiro, de 50 anos, ‘tirou o chapéu’ a Álvaro Pacheco pelo registo de 15 vitórias em 23 jogos, possibilitando não só a luta pelo quarto lugar com o rival Sporting de Braga, mas também o sonho de regressar à final da Taça de Portugal, no Jamor.

“Acho que ele está a fazer um trabalho espetacular. Acredito que possa ser um dos trabalhos, em termos de pontuação, dos últimos anos. Só lhe podemos tirar o chapéu. Milagres não existem num estalar de dedos. Existe trabalho, trabalho e trabalho. Continuidade e convicção nas metodologias de trabalho. O [trabalho] individual decide. Por exemplo, o Álvaro Pacheco não teve tanto sucesso no Estoril”, vincou Paulo Turra.

Taça de Portugal e quarto lugar? São dois objetivos reais e concretizáveis. Com o poder da massa associativa e com o grupo de jogadores muito forte, mesmo com as saídas [no inverno], o Vitória tem plenas condições de conquistar esses dois objetivos. Não vejo outro cenário que não esse”, admitiu.

Recorde-se que Paulo Turra passou pelo Vitória SC, como jogador, em 2004/05, já depois de três épocas ao serviço do Boavista, tendo regressado recentemente na condição de treinador, durante 42 dias. Apesar da surpresa com a decisão da direção, o ex-adjunto de Scolari acredita que o clube de Guimarães tem condições para acabar a época a sorrir.

Notícias ao Minuto O Vitória SC segue na quinta posição da I Liga, a três pontos do rival Sporting de Braga, encontrando-se ainda nas ‘meias’ da Taça de Portugal, frente ao FC Porto, a disputar o acesso à final do Jamor.© Gonçalo Delgado/Global Imagens  

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Fonte: Notícias ao Minuto

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