"Ateimei que ia jogar na Liga dos Campeões. Chamaram-me maluco, mas…"

Ainda antes da curta aventura no comando técnico do Vitória SC, Paulo Turra já tinha dado que falar em Portugal, como jogador, na reta inicial do século XXI, altura em que representou o Boavista e acabou depois por rumar ao emblema de Guimarães. Tudo isto entre 2001 e 2005.

Em entrevista ao Desporto ao Minuto, o ex-central brasileiro recordou vários episódios da sua carreira, entre 1991 e 2007, arrancada e terminada no Brasil, mas com passagens assinaláveis pelo continente europeu, mais concretamente em solo português. Um dos destaques acabou mesmo por ser o facto de ter cumprido o sonho de disputar a Liga dos Campeões, em 2001/02, precisamente, na época após a conquista do inédito título de campeão nacional por parte dos axadrezados.

Paulo Turra contou, ainda, histórias que viveu com internacionais portugueses como Ricardo Pereira, José Bosingwa e Raúl Meireles, igualmente ao serviço do emblema do Bessa, às ordens de Jaime Pacheco, acabando depois por explicar como aconteceu a troca entre dois rivais portugueses, face à saída direta para o Vitória SC no verão de 2004.

O treinador de 50 anos, sem clube desde que foi dispensado pelos vimaranenses em outubro de 2023, admitiu que na sua reta final de carreira de jogador, em 2007, com 34 anos, já só pensava em ser treinador, acabando mesmo por alcançar essa meta. Com muita resiliência, precisou também da ajuda de Luiz Felipe Scolari para chegar aos patamares mais altos do futebol, como técnico principal, tanto no Brasileirão, ao serviço do Athletico Paranaense e do Santos, como na I Liga, pelo Vitória SC.

Soube que o Boavista ia ter acesso direto à fase de grupos [da Liga dos Campeões], sem ter de passar pelas eliminatórias, no momento em que me preparava para subir ao relvado do Estádio do Bessa [pela primeira vez].Como jogador, passou por Caxias, Botafogo e Palmeiras, até que chegou ao Boavista em 2001, com 27 anos. Como aconteceu essa chegada ao futebol português?

Naquela época, eu era jogador do Palmeiras e, no Brasil, ainda existia a Lei do Passe. Os jogadores eram vinculados eternamente aos clubes. O Palmeiras comprou os meus direitos ao Caxias e fizeram um contrato de um ano comigo. Mesmo depois de terminar, eu continuava vinculado ao Palmeiras. Era a tal Lei do Passe. A partir de 2001 isso acabou. Agora já é tudo como acontece em Portugal, por exemplo. Eu tinha encerrado o meu contrato com o Palmeiras em junho de 2001 e não consegui acertar os valores com o presidente. Estive a treinar em separado até que, cinco ou seis dias depois, o nosso diretor disse-me que havia pessoal de Portugal, do Boavista, com interesse no meu futebol. Eu acompanhei a época em que o Boavista tinha sido campeão [2000/01]. Ele disse-me ‘O Senhor Jaime [Pacheco] quer ver-te a treinar. É possível organizar já tudo para um treino?’ ao que respondi ‘Já está na hora’. Chamaram-me para a sede do clube [do Boavista], já lá estava o agente e acertámos tudo muito rápido, mesmo o meu salário. Em quatro dias já estava em Portugal.

O Boavista sagrou-se campeão de forma inédita na temporada anterior, algo que possibilitou o acesso à Liga dos Campeões. Qual foi a sensação de chegar a Portugal e disputar logo esta competição?

É aí que entram os detalhes. Eu trabalho muito com o sonho e com a mente. Enquanto estava no Palmeiras, assistimos a jogos a contar para a Liga dos Campeões durante as nossas concentrações. Lembro-me que estava no quarto do hotel com um colega, que foi jogador e treinador da seleção do Paraguai, e ateimei que um dia ia disputar aquela competição. Chamaram-me maluco, mas, no ano seguinte, eu estava em Portugal para jogar a Champions. Já sabia que o Boavista ia disputar a prova, mas soube que eles iam ter acesso direto à fase de grupos porque o Bayern Munique tinha sido campeão na edição de 2000/01, sem ter de passar pelas eliminatórias. Tive conhecimento dessa notícia precisamente no momento em que me preparava para subir ao relvado do Estádio do Bessa. Já nem me lembro quem o disse. Se foi o Jaime ou um assessor de imprensa. Foi uma boa história.

Gostou de trabalhar com Jaime Pacheco nas três épocas em que esteve no Boavista?

Gostei muito dos métodos de trabalho dele. Nós priorizávamos muito a parte física. O Boavista era uma equipa muito intensa, muito forte fisicamente. A parte individual fazia a diferença. Eu cheguei [ao Boavista] simplesmente para substituir o capitão, o Litos [transferido para o Málaga], mas o Boavista tinha uma base de jogadores que já vinham trabalhando durante alguns anos juntos. Petit, Duda, Martelinho, Sanches, Jorge Silva, Pedro Emanuel, Ricardo [Pereira]… Muito bons jogadores [risos]. Aliado a isso, havia a parte tática, os comportamentos de jogo, o entrosamento e, sobretudo, a parte física, que era muito enfatizada. Também por causa disso é que nós conseguíamos fazer frente a grandes clubes, que o eram naquela época e o são até hoje, como FC Porto, Benfica e Sporting. Batíamos de frente com eles. O Jaime Pacheco era um treinador que nem admitia perder durante o treino. Comigo não aconteceu, mas tive colegas que até podiam ser titulares absolutos e, se não treinassem bem, não jogavam. Era uma lei quase. Em todos os treinos tínhamos de dar o máximo, com muita intensidade, para estarmos bem no fim da semana. Quem não tivesse esse pensamento ficava de fora.

Notícias ao Minuto Paulo Turra experimentou a sensação de pisar grandes palcos do futebol europeu, logo na sua primeira aventura, ao defrontar equipas como Manchester United, Liverpool e Bayern Munique.© Getty Images  

Chegar ao Boavista e partilhar balneário com muitos jogadores brasileiros também o ajudou na sua adaptação ao futebol português?

Sim, ajudou-me bastante. O que também me ajudou foi já conhecer o Boavista. No ano anterior, acompanhava os jogos do campeonato português. Encontrei jogadores como [Elpídio] Silva, Duda, Erivan, Glauber, Márcio Mixirica e isso facilitou-me muito, sobretudo o Márcio, que morava junto do estádio. Eu estava sozinho porque a minha companheira não tinha ido para a Portugal e acabava por ir para lá jantar. A minha adaptação foi muito rápida.

Ainda dentro da questão dos jogadores, partilhou balneários com internacionais portugueses como Ricardo Pereira, Bosingwa e Raúl Meireles. Que histórias guarda consigo em relação a esses craques lusos?

Tenho histórias sobre os três. Dava-me muito bem com o Ricardo [Pereira]. Ainda hoje digo que ele foi um dos dois melhores guarda-redes, além do Marcão, do São Paulo e do Palmeiras. O Ricardo era espetacular. Tinha a fama de não pegar penáltis. Ele não era alto, mas tinha força nas pernas. Se ele atuasse neste futebol moderno, com os pés, o Ricardo hoje seria uma das referências do futebol. Eu até lhe disse para atrasar um bocadinho a saída dele [entre os postes] e lembro-me que no jogo contra o Málaga, em 2002/03, nos ‘quartos’ da Taça UEFA [1-1 no agregado, 4-1 nas grandes penalidades], ele defendeu um penálti. Falou comigo sobre essa nossa conversa depois do jogo. Outra história que tenho com ele é que, nos dias de jogos, o Jaime Pacheco gostava de fazer treinos no estádio e, num ‘meinho’, o Ricardo deu uma ‘boladona’ no Jorge Couto, que hoje é adjunto do Boavista, e acertou-lhe na parte do sobrolho [risos]. Foi muito engraçado. Pediu mil desculpas e até chorou.

Com o Bosingwa, lembro-me que o Jaime Pacheco o chamou nas camadas jovens e, numa eliminatória da Liga dos Campeões, no Chipre, em 2002/03, o Bosingwa ficou impaciente a certa altura e quis queixar-se junto de mim, por ser um jogador mais experiente. Disse-lhe logo que o Pacheco era assim, queria a nossa evolução e era o jeito dele. O Bosingwa evoluiu e assimilou aquilo tudo. Acredito que o Pacheco o tenha ajudado. Já o Raúl Meireles não sabia cabecear, mesmo tentando nos treinos. Acho que ele acabou a carreira sem saber. Eu dizia-lhe ‘vem cá, vamos lá fazer cabeceamentos’. Chutava para ele, com bolas longas, tinha de lhe dizer ‘não é assim’ [risos]. São histórias muito bonitas. 

Em nenhum momento algum adepto de Boavista se virou contra mim. Sempre tive carinho por eles. Até falo com alguns através das redes sociais.

Em 2004/05, trocou o Boavista pelo Vitória SC, já depois de uma época em que perdeu o estatuto de titular indiscustível. Passar para o outro lado da rivalidade enfureceu os adeptos do Boavista?

Acredito que, até hoje, possa haver alguma coisa mal explicada [em relação à saída]. Foi tudo muito rápido. Apresentei-me ao serviço do Boavista [no verão de 2024] com uma lesão na perna que sofri no Brasil. Cheguei lá e comuniquei ao médico. Perdi um pouco da pré-época. Recuperei, fiz um jogo de pré-temporada e houve um momento de desacordos pelo meio. Entrei em contacto com o presidente [do Boavista] e acabámos por rescindir por mútuo acordo. Quanto aos adeptos, sempre tive muito respeito por eles. Em nenhum momento algum adepto de Boavista se virou contra mim. Sempre tive carinho por eles. Até falo com alguns através das redes sociais. Não houve problemas. Aliás, no ano em que estive no Vitória, com um triunfo no final da época, em Guimarães (2-0), tirámos ao Boavista a chance de disputar as competições europeias, mas nunca tive problemas com eles. Bem pelo contrário.

Por falar em rivalidades, ficou a par de uma das mais históricas do país, entre Vitória SC e Sporting de Braga, na luta pelo quarto lugar da I Liga. De que forma viveu essa aventura?

Passei um ano muito bom no Vitória. Quando lá cheguei, conversei muito com o treinador Manuel Machado. Entre sair do Boavista e entrar no Vitória, estive uns 12 dias a treinar no Porto, com um personal trainer. Não fiz propriamente a pré-temporada. Conversei com ele sobre isso. Disse-lhe que, pelas minhas características, precisava de estar muito bem fisicamente. Ele disse-me que queria colocar-me a jogar. Até ao início do campeonato, fiz uns dois ou três jogos, mas não estava bem. Fiquei mais pelo banco até ao final da primeira volta. O Cléber [Lima] e o [Attila] Dragóner estavam muito bem. Uma grande dupla de centrais. Fui trabalhando com serenidade, profissionalismo e esperei pela minha oportunidade, que chegou após um jogo em que fomos eliminados pelo Vitória FC, em Setúbal [por 3-1, nos ‘oitavos’], na Taça de Portugal. Na viagem de regresso, o Manuel Machado até teve a hipótese de pedir a demissão, mas não pediu. Fizemos uma segunda volta espetacular. O Vitória estava na segunda metade da tabela, a uns dez pontos do Boavista. Penso que até fomos a segunda ou terceira equipa a fazer mais pontos nesse período.

Quanto ao Sporting de Braga, lembro-me que joguei em Braga na primeira volta, em que perdemos por 1-0, mas depois na segunda volta ganhámos por 1-0, com golo do Cléber, do meio da rua. Ele batia bem na bola. Era um grande capitão. A rivalidade entre as cidades de Guimarães e Braga sempre foi muito forte. Mais tarde, houve o tal jogo frente ao Boavista, em que ganhámos por 2-0 [na penúltima jornada]. O quinto lugar também estava em disputa e lembro-me que eu fui um dos jogadores a quem o departamento de marketing pediu para fazer um gesto com cinco [dedos] porque queríamos aquele quinto lugar, que dava acesso à Taça UEFA. Foi o que aconteceu.

Quando um defesa olha mais para o seu guarda-redes do que para o guardião contrário… Eu já só olhava para o meu, já corria mais para trás [risos]. Estava na hora de encerrar a minha carreira.Saiu do Vitória SC para os escoceses do Hibernian em 2005, seguindo depois para o Brasil, onde terminou a carreira em 2007, no Avaí. Por que motivo terminou a carreira com 34 anos?

Houve dois fatores que me condicionaram. Quando eu estava no Vitória, em dezembro de 2004, com 30 anos, até cheguei a dizer que se já tivesse uns 33 anos acabaria a carreira porque já me estava a imaginar como treinador. Eu tinha o sonho de ser treinador. Já tinha uma linha. Foi isso que aconteceu. Fui para a Escócia ter uma experiência bem tranquila e depois até tive propostas de Portugal, mas não foram interessantes do lado financeiro. Regressei ao Brasil e ainda fiquei um tempo parado, até que recebi uma proposta do Sertãozinho de São Paulo, com uma hipótese muito boa de disputar o campeonato Paulista. Fiquei lá um mês até que apareceu o Avaí, um clube bem tradicional no Brasil, com uma proposta válida até ao final da temporada. Era uma proposta boa financeiramente. Eu já estava naquele pensamento de ‘eu vou jogar, depois vou parar’. Encerrei a minha carreira após uma época bastante difícil, a lutar pela manutenção [na Série B]. Podia ter seguido mais tempo, mas eu tinha a ideia de ser treinador, além de que estava com alguns problemas com lesões. Quando um defesa olha mais para o seu guarda-redes do que para o guardião contrário… Eu já só olhava para o meu, já corria mais para trás [risos]. Estava na hora de encerrar a minha carreira e depois comecei como treinador em junho de 2008.

Ficou a faltar algo como jogador? Algum campeonato ou até mesmo a seleção do Brasil?

Eu nunca tive o sonho de ser jogador de seleção, mas é verdade que fui questionado pelos jornalistas algumas vezes [sobre isso], principalmente na minha primeira época no Boavista. Perguntavam se eu gostava de jogar pela seleção brasileira e que até estava a merecê-lo, também pela época em que estávamos a realizar. Eu dizia ‘se o selecionador quiser convocar-me, okay, mas eu não tenho esse sonho’. Ali eu queria era defender as cores do Boavista. Após a primeira temporada no Bessa, tive uma proposta do Olympiacos, na Grécia, em que ofereciam cerca de 2,5 milhões de euros. O Boavista deu 800 mil euros pelo meu passe. Os clubes não se entenderam. Até tenho os jornais aí guardados, em relação às notícias que falavam dessa oferta. Podia ter dado o salto para uma equipa ainda maior do que aqueles anos que passei no Boavista e até no Vitória, mas não deu. Sou feliz assim na mesma e grato por todas as oportunidades que recebi.

Notícias ao Minuto Paulo Turra esteve três épocas no Boavista, passou um ano por Guimarães e, pouco depois, encerrou a carreira com 34 anos.© Getty Images  

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Fonte: Notícias ao Minuto

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